
Como não possuo nenhuma procuração para falar em nome dos médicos dentistas, a metáfora que descrevi acima serve apenas para ilustrar as diferenças entre qualidade e funcionalidade, também aplicáveis à Psicoterapia. Deixa de haver funcionalidade aquando do aparecimento de sintomas – dor física, no caso da saúde oral e dor emocional no caso da saúde mental – e é a partir do momento em que a vida (familiar, conjugal ou pessoal) se torna disfuncional que nos lembramos de recorrer à ajuda especializada. Quanto mais cristalizados estiverem os problemas, mais profundo (e muitas vezes mais longo) será o processo terapêutico.
Para muitas pessoas, a realização de algumas consultas é suficiente para que haja melhorias importantes, capazes de fazer com que os comportamentos readquiram funcionalidade. A dor atroz que as conduziu numa fase inicial ao consultório de Psicoterapia reduz e, tal como na metáfora, surge uma bifurcação. Para alguns, o desaparecimento da dor é suficiente para que a intervenção seja interrompida. Para outros, a estabilidade emocional advém da promoção da qualidade.
Atingir a qualidade na vida familiar, conjugal ou pessoal não implica apenas funcionalidade. É preciso desfazer os nós, aprender novos padrões de comportamento, e perspectivar o futuro.
Mas atenção: isto não quer dizer que os utentes de um serviço de Psicoterapia necessitem de consultas regulares por toda a vida! Ao contrário do que acontece na Medicina Dentária, nesta área não existe lugar para “tratamentos de rotina” ou “check up’s” periódicos. O “follow up”, isto é, o acompanhamento pós terapia não deve ser confundido com a protelação ad eternum do fim do processo terapêutico. A partir do momento em que o terapeuta e as pessoas envolvidas na terapia estão de acordo com a alta, não há razão para que as consultas se mantenham.
Como nota final, gostaria de referir que às semelhanças entre a saúde oral e a saúde mental identificadas atrás acrescem duas circunstâncias incontornáveis:
- o facto de as consultas nas duas especialidades estarem “entregues”, na maioria dos casos, à actividade privada, sem lugar a comparticipações estatais;
- o desconhecimento / medo associado aos dois processos terapêuticos.